segunda-feira, 27 de abril de 2020

Insulamento



Lento
Passa o tempo
Areia parada
No fundo da ampulheta
Um pé dentro
Outro suspenso
Tenso
Paira sobre o medo
 Desde cedo
Aprendi a me insular
Me equilibro
Abro um velho livro
Leio um poema
Mesmo que tema
Pelo erguer de uma nova onda
É quase certo,
Resistiremos.
Desejo,
No entanto,
Existir de outro modo
Da minha ilha
Olho o mundo
Com receio
Piso de leve
Sobre as areias do tempo
E olho temeroso
Para onde não quero voltar.

sábado, 21 de março de 2020

Recolho as pedras do caminho
e faço a minha barricada
A revolução não vai ser televisionada
nem precisará de facebook
por enquanto
eu aguardo ansioso
e trabalho com as formigas
por que, mais dia menos dia
isso tudo vai explodir
a burguesia vai cair,
a branquetude,
o patriarcado.
E aí! Você fica de que lado
Brado: Para onde foi o sangue derramado
das veias abertas da América Latina?
Alimenta a fina flor da insurreição!
no meu peito
um coração que ninguém manda,
no meu peito
um coração que pulsa
junto a cada povo que se levanta.
Anda!
Caminha!
Avança!
Já foi plantada a semente da revolta...
Pra senzala ninguém volta!
me solta
que hoje nada está tranquilo
creio ter ouvido um estribilho:
"De pé ó vítimas da fome!"
Do outro lado alguém grita meu nome:
"Ô Zé Povinho!"
Recolho e atiro as pedras do caminho.
Em cada país do terceiro mundo
uma intífada
a revolução não vai passar no fantástico
ou irromper no Faustão
Não!
Os plebeus que se conformem
com o grito ensurdecedor das ruas.
Jovens mascarados
e moças nuas...
é a vida que explode como se transformasse em carnaval
(não vejo nisso nenhum mal).
A verdade vai bater em sua porta e lhe disser:
não espero nem mais um instante!
Isso mais dia ou menos dia
mas, não espere sentado
por que não vai ser televisionado
e nem vai passar
em um cinema perto de você.

Sonhar,
mergulhar
no
desejo
e ficar
como
em
âmbar.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019


OS CINCO CORTES DAS FACAS GINSU

PRIMEIRO CORTE

A faca corta o cordão
Gosto de carne e sangue
Cortar e fazer sangrar
Futuro vício da lâmina

SEGUNDO CORTE

Com a faca afiada
aos poucos corta-se muito
Da lida a vida
corte profundo
corta-se a alma
corta-se o mundo
 pelo corte me foge
                                a essência.
Eis a ciência da lâmina.

TERCEIRO CORTE

Como do corte da faca a ferida
Só uma coisa na vida é certa
                           Que venha a morte
                           Sorte pra quem fica
Fossemos  mais sábios...
e a faca cega.

 Nota de roda pé:
[2008, ano de minha morte
Secionadas as veias do coração
Foram-se os dedos onde antes haviam anéis
Meteram-se pés pelas mãos.
 Dia sim, dia não
Sigo eu os sinais de sangue
Da origem aos seus pés
A faca em seu novo corte! ]






sexta-feira, 19 de julho de 2019

Luzia
Luziu
Luz do dia

raio de sol
água de rio

eu me rio
             
do sorriso de Luzia

sábado, 8 de junho de 2019

A volta.

Jesus vai voltar
vai voltar como favelado
preto, pobre, da quebrada
vai pregar no sarau da periferia
levar baculejo, tapa e esculacho da PM

Jesus vai voltar
vai voltar como mulher
vai levar a primeira, a segunda e a terceira pedra
vai tombar quase morta
enquanto lhe chamam:
PUTA!

Jesus vai voltar!
vai voltar como travesti
vão lhe cuspir na cara
vão lhe chamar de aberração
chute, pedra, tiro
vai sussurrar pelo pai
agonizando no meio fio

Jesus já voltou!
Como? Você nem viu!
quase tropeçou sobre  seu corpo
"Filho da puta! Atrapalhando a passagem"
Caminhava apressado
Avistando, distante, as portas da igreja.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Da viajem

                Á Italo Coelho

A fumaça
nada indica
em linha reta
sigo a seta
[o caminho das flores]
antes que seda
e se quede
como se fosse
cann. sativa